Memória

Vídeo comemorativo.




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Pioneiro da FEAUSP, o ex-diretor Ruy Leme conta, durante depoimento gravado em 1995, como a Faculdade conseguiu instalar a Congregação em 1960.




Fundação da FEA estava ligada ao ensino das Ciências Econômicas

Professor da FEA, chefe do departamento de Economia e ex-vice-reitor da USP por dois mandatos, Hélio Nogueira da Cruz explica como a fundação da FEA está ligada ao ensino das Ciências Econômicas

Hélio Nogueira da CruzA FEA foi fundada em 1946, voltada especialmente para o estudo da Economia. Sua criação foi uma resposta ao movimento, que teve início no Estado Novo de Getúlio Vargas, para que fosse dado um tratamento mais completo às Ciências Econômicas. Quem conta é o chefe do departamento de Economia, professor Hélio Nogueira da Cruz. Segundo ele, o estudo das Ciências Econômicas no Brasil começou na época de D. João VI, nas escolas de comércio. “Mais tarde, ele passou a ser difundido nas escolas de Engenharia e de Direito, basicamente disciplinas de Economia Política. Mas era um estudo muito superficial e pouco abrangente”, ressalva.

Segundo Hélio Nogueira da Cruz, por volta de 1944, quando estava em processo de expansão, a USP trouxe gente de fora, sobretudo pesquisadores convidados, para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), “reforçando o paradigma de pesquisa e ensino que a Universidade procurava implementar desde a sua origem em 1934”. Após sua criação, a FEA passou a contar com alguns professores estrangeiros e com um grupo, amplamente majoritário, de docentes recrutados na cidade de São Paulo, professores de Estatística, de Matemática, da Faculdade de Direito e também alguns acadêmicos da FFCL.

No Brasil, os rumos das escolas de Economia foram estabelecidos em 1953. De acordo com o professor Hélio Nogueira, enquanto doutrina, a FEA estava ligada, até então, à tradição europeia, aquela adotada na FFCL. Mas, a partir daquela data, a tendência foi buscar um caminho mais próximo aos modelos do mainstream norte-americano em todo o país. “O mainstream é o nome utilizado entre as escolas de Ciências Econômicas para identificar o grupo ortodoxo predominante”, explica o economista, lembrando que o professor Delfim Netto foi um dos responsáveis por essa opção teórica e metodológica.

Ao analisar a crise vivida pela FEA entre 1955 e 1959, que culminou com uma ampla greve, Hélio Nogueira reconhece que naquela época a Faculdade atraía poucos alunos e que havia uma crise muito forte no país. “O fato é que a década de 50 foi um período muito importante na reflexão dos economistas. Em 1948, com a criação da Cepal (Comisión Económica para America Latina), tornou-se clara a defesa de uma ambiciosa proposta de industrialização. Claro que isso não acontecia só no Brasil ou na América Latina. Era uma tendência internacional a favor do planejamento e da presença do Estado na economia. O governo Juscelino Kubitschek representava essa postura”.

O chefe do departamento de Economia prossegue com o cenário que envolveu a crise: “Entre 1955 e 1960, houve o Plano de Metas, que foi o resultado de um grande debate dos economistas e políticos em geral e representou um ponto de inflexão na história econômica do país. Mas, para que houvesse esse grande debate, houve antes a crise de 1933, cuja proposta de solução veio de Keynes, que defendia o papel ativo do Estado para reverter os ciclos de baixa atividade econômica. Curiosamente, Raul Prebisch, o fundador da Cepal, começou estudando e trabalhando na área keynesiana, divulgando suas ideias. Estabeleceu-se um grande embate entre a ortodoxia liberal e a nova visão keynesiana, com os seus desdobramentos sobre a industrialização”.

Na FEA, e nos principais departamentos de economia do país, os currículos refletiam esse debate, que privilegiou os estudos históricos e de planejamento econômico, ao mesmo tempo em que se procurava adotar um modelo de curso mais assemelhado ao que existia nas faculdades de economia dos Estados Unidos, que atribuíam forte ênfase aos Métodos Quantitativos e à Teoria Econômica. Segundo Hélio Nogueira da Cruz, era um momento em que o debate econômico apresentava grande riqueza. O tema do desenvolvimento econômico e social recebia grande destaque nas escolas de Economia e o combate à inflação não era, então, prioritário.

Greve de alunos

A FEA, por outro lado, apresentava dificuldades, com poucos alunos que se mostravam insatisfeitos e, por isso, deflagraram uma grande greve. “Foi criada uma comissão pelo Conselho Universitário para encaminhar uma solução para a FEA. Vale a pena ressaltar os nomes dos professores Ruy Aguiar da Silva Leme e Alice Piffer Canabrava, que foi diretora da FEA nesse período. A professora Alice era muito dedicada, grande pesquisadora, tendo criado um grupo que abrigou acadêmicos de destaque, como Fernando Henrique Cardoso. O Prof. Ruy Leme colaborou, sobretudo, na área de Estatística e teve papel decisivo na criação do curso de Administração, em 1960”, ressalta o chefe do departamento de Economia.

Hélio Nogueira da Cruz afirma que esse período foi um divisor de águas na FEA. “A crise da falta de alunos, da não formação de profissionais e da falta de professores sintonizados com as tendências dos economistas internacionais – e mesmo nacionais – foi um divisor de águas. A partir desse período, os padrões acadêmicos elevaram-se, passando a adotar os referenciais internacionais de pesquisa e ênfase nos estudos da economia brasileira, dada a urgência do desenvolvimento econômico num país caracterizado por enormes disparidades na distribuição da renda”.

Para solucionar a crise na FEA, além da criação do curso de Administração, foi estabelecido um programa de intercâmbio internacional de professores, que foi muito importante para a área de ciências econômicas no país e na FEA. Segundo o professor Hélio Nogueira da Cruz, vieram muitos professores americanos de altíssimo padrão e foram enviados muitos alunos, que mais tarde se tornariam docentes, para universidades americanas de primeira linha, como Harvard, Yale e Chicago. “Olhando hoje, percebemos como foi excepcional aquele período. Foi uma guinada. A FEA optou decididamente pela ortodoxia do mainstream. Passamos a contar com um grande número de docentes em período integral, que passavam a publicar em periódicos internacionais”.

Desde o início dos anos 1960, o Departamento de Economia e a FEA tiveram papel de destaque no país. “Nomes importantes na política, como os professores Delfim Netto, Affonso Pastore e Ruy Leme, acabaram por facilitar a obtenção de recursos para montar um Centro de Processamento de Dados bastante significativo para os padrões da época. A FEA, desde então, tem apresentado contribuição significativa na extensão universitária, com expressiva participação no debate econômico nacional e grande número de docentes que ocuparam relevantes posições no Governo, em suas várias esferas de atuação”, analisa o chefe do departamento de Economia da FEA.

Pluralismo de ideias

Segundo o chefe do departamento de Economia, Hélio Nogueira da Cruz, após a transição para uma tendência mais norte-americana, houve uma divisão entre monetaristas e keynesianos. “Tínhamos um grande número de colegas vindos da Universidade de Chicago, que é muito famosa do ponto de vista teórico e didático, que defendiam o pensamento monetarista de Milton Friedman. Os keynesianos também tinham alguns representantes, mas formavam um grupo menor”.

A FEA, ainda segundo Hélio Nogueira, tem permitido a convivência relativamente harmônica de várias tendências, inclusive a do grupo remanescente da FFCL e seus seguidores. “O pluralismo metodológico e a coexistência de várias correntes de pensamento em ambiente bastante democrático têm sido duas das marcas do Departamento de Economia da FEA, embora tenha prevalecido sempre um posicionamento teórico francamente majoritário a favor do mainstream, sobretudo na pós-graduação. Atualmente, existe também um excelente curso de pós-graduação com ênfase no Institucionalismo, que reúne grande parte dos professores não-alinhados ao “mainstream””, conclui o economista.