Alunos reforçam desejo de se aproximar da área pública

Instituir disciplinas de gestão pública comuns a todas as carreiras, desenvolver projetos ligados ao setor público ou promover estágios em órgãos governamentais com o intuito de aproximar a Faculdade da área de gestão pública e formar protagonistas cidadãos. Essas foram algumas das propostas apresentadas por alunos e ex-alunos durante a palestra “Gestão pública e protagonismo cidadão no Brasil”, realizada no último dia 8 de novembro, na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP. O evento, que integra as comemorações dos 70 anos da FEAUSP, discutiu como a Universidade pode ampliar a formação de líderes para a gestão pública.

O tema da palestra foi motivado por uma demanda dos próprios alunos, após a realização de uma pesquisa na FEA que identificou um grande interesse dos estudantes na administração pública. Foram ouvidos 416 alunos dos quatro cursos – Economia, Administração, Contabilidade e Atuária – sobre suas expectativas em relação à Faculdade. A sondagem revelou que 38% manifestaram o desejo de ver a instituição mais envolvida com temas e atividades ligadas à gestão pública. O resultado surpreendeu até alguns líderes estudantis, pois tradicionalmente há um interesse profissional maior no mercado de trabalho e na atividade empreendedora.

A mesa de discussões foi formada pela professora Ana Carolina Rodrigues, do departamento de Administração da FEA, que supervisionou a pesquisa com os alunos, pelos representantes de entidades estudantis Vitor Monteiro (FEA Consulting Club) e Arthur Scaffi (FEA júnior), e por dois ex-alunos da FEA – Michelle Arruda e João Abreu, que hoje trabalham na área da gestão pública, mas relataram que não encontraram no ambiente acadêmico oportunidade ou incentivo para se aprofundarem em questões ligadas à área.

Ex-aluno de Economia, João Abreu disse que a Faculdade não oferece caminhos para alunos interessados na área da gestão pública. Ele contou que teve dificuldade até para expor esse desejo entre os colegas e que só teve uma aproximação com o tema quando ingressou no Centro Acadêmico, e posteriormente quando decidiu fazer uma segunda graduação fora da USP. “A vontade inicial que eu tinha de conhecer mais a área pública era uma coisa fora do padrão. Meus amigos da FEA falavam muito em consultoria, em mercado financeiro, mas aquilo me dava um certo desconforto”, relatou João Abreu.

Atualmente, o economista trabalha na SP Negócios, empresa ligada à Prefeitura de São Paulo, e integra a ONG Vetor Brasil, que desenvolve talentos e práticas para melhorar a gestão pública, além de selecionar e conectar pessoas com oportunidades profissionais no setor público. Ele aconselhou os atuais alunos que se interessam pelo tema a tentar superar as dificuldades de ambiente na graduação e procurar atuar por um determinado tempo no governo. “No mínimo, vocês vão ter uma formação mais sólida, uma capacidade de opinar com mais propriedade. Se por acaso gostarem, certamente será muito bom para o Brasil porque a FEA já forma tecnicamente muito bem os alunos”.

Formada em Administração pela FEA, Michelle Arruda foi responsável pela estruturação da área de educação do Centro de Liderança Pública (CLP), que promove cursos para a formação de gestores públicos em nível de MBA. Sobre o papel da FEA na formação de líderes públicos, Michelle disse que faltam na instituição disciplinas “mais transversais” que tratam do tema, ou seja, disciplinas comuns a todas as carreiras. Além de incentivar redes de relacionamentos, ela acredita que essa convivência de pessoas de áreas diferentes enriquece o debate. A administradora também sugeriu o desenvolvimento de núcleos de estudos e projetos voltados para o setor público, oferecendo dessa forma o que ela chamou de “aprendizado mão na massa”.

Michelle Arruda falou, ainda, sobre os desafios inerentes à gestão pública, dentre eles a dificuldade de se equilibrar a meritocracia e a isonomia salarial. Outro desafio, acrescentou, é identificar lideranças e construir equipes que vão conseguir fazer a mudança na gestão pública. “Há uma descrença generalizada com a classe política, com os gestores públicos, mas a gente tem que pensar que muita coisa no Brasil funciona. E se funciona é porque tem gente boa, capacitada. E eu conheci muito dessas pessoas”. No final da apresentação, a administradora deu um conselho para os alunos interessados nessa área. “A gente está num momento de crise que às vezes desanima, mas cada vitória que você tem, mesmo pequena, gera um impacto na vida de milhares de pessoas. Isso foi uma coisa que me instigou e me instiga a continuar próxima à gestão pública”.