Diálogos sobre o futuro do trabalho encerram o ciclo “Repensar o Brasil”

A Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP promoveu no último dia 21 de novembro em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) a jornada “O Futuro do Trabalho no Brasil”, reunindo diversos especialistas nacionais e estrangeiros para debater duas importantes questões: “Desenvolvimento Sustentável: Desafios e Oportunidades para o Futuro do Trabalho” e “Quais Serão as Fontes de e as Formas dos Empregos no Futuro?”. Esta jornada encerrou o ciclo de palestras “Repensar o Brasil”, em comemoração aos 70 anos da FEAUSP, ao mesmo tempo em que integra os Diálogos Nacionais realizados no marco dos preparativos do centenário da OIT, a ser comemorado em 2019. O evento foi mediado pelo Professor Jacques Marcovitch (FEAUSP) e o diretor do escritório da OIT no Brasil, Peter Poschen.

Durante a abertura da jornada, Peter Poschen disse que os países membros da Organização Internacional do Trabalho estão realizando diálogos nacionais sobre quatro temas relacionados ao futuro do trabalho, cujos resultados serão submetidos a uma comissão mundial de alto nível e, posteriormente, à Conferência Internacional do Trabalho, em 2019. No Brasil, o primeiro diálogo foi realizado em maio passado e versou sobre “A reorganização do trabalho e da produção”. Em novembro, foram realizados mais dois diálogos na FEAUSP dentro da jornada “O futuro do trabalho no Brasil”. O último diálogo está previsto para o primeiro semestre do próximo ano, no Rio de Janeiro.

Os diálogos deverão orientar as ações da Organização Internacional do Trabalho ao longo dos próximos 100 anos. Segundo Peter Poschen, as discussões giram em torno das seguintes questões: 1) qual governança do mundo do trabalho queremos; e 2) qual deveria ser a governança adequada. “A OIT é uma organização do século XX e a dúvida atualmente é se ela está apta a assegurar uma governança adequada para o mundo do trabalho no século atual. Estamos assistindo a mudanças na tecnologia, impactos da globalização, fenômeno migratório, novos modelos de negócios emudanças climáticas. Tudo isso gera muito insegurança, questionamentos e reflexão”, ressaltou Poschen.

Mudanças climáticas e trabalho

Em sua apresentação, Peter Poschen falou sobre os impactos das mudanças climáticas nas economias mundiais e na geração de emprego e renda. Disse que o dilema de escolha entre crescimento econômico e proteção ao meio ambiente é um “falso” dilema. Segundo ele, a economia “verde” é compatível com o desenvolvimento e poderá resultar num aumento no número de empregos no mundo. “Podemos gerar mais e melhores empregos numa economia mais sustentável. Nossos estudos indicam que é possível gerar 60 milhões de postos de trabalho a mais numa economia verde do que na economia convencional. Isso não vai resolver o problema do desemprego no mundo, mas será uma contribuição”.

Peter Poschen citou, ainda, um estudo dos Estados Unidos, que projeta a geração de empregos no país, até 2035, quando teoricamente os EUA deverão atingir a meta de 40% de redução das emissões de gases. O estudo sugere que, com investimentos de US$ 200 bilhões por ano em eficiência energética e energia renovável, seria possível se criar mais de 4 milhões de empregos. Para o diretor da OIT, esse é um exemplo de que não precisamos seguir o modelo antigo de crescimento para gerar mais empregos no mundo. Por outro lado, ele avaliou que as mudanças climáticas e as medidas para mitigar as emissões de gases poderão ocasionar o que chamou de“pobreza energética”, atingindo de maneira desproporcional os mais pobres.

O presidente da Fapesp, José Goldemberg, mostrou um levantamento sobre o número de empregos gerados na produção de energias renováveis em países da Europa e na produção do etanol brasileiro. Enquanto o segmento de petróleo gera 1 emprego, proporcionalmente a biomassa sólida gera 5 empregos, o biogás (11), a geotérmica (15), as pequenas hidrelétricas (18), a energia eólica (46), o etanol brasileiro (96), a solar/térmica (190) e a fotovoltaica (340).

Sobre os riscos decorrentes dos resultados da eleição norte-americana para o Acordo de Paris, José Goldemberg não acredita que as promessas feitas na campanha por Donald Trump terão efeito negativo, pois elas são contraditórias. “Num momento ele prometeu ressuscitar a indústria do carvão, mas em outro disse que tornaria o gás o combustível de transição. São medidas incompatíveis. É uma coisa tipicamente populista. É evidente que o carvão não vai ser ressuscitado”.

Produtividade na indústria

O diretor geral do Senai, Rafael Lucchesi, afirmou que o Brasil está atrasado 100 anos no tempo médio de escolaridade da população em relação aos países desenvolvidos, o que impacta negativamente na produtividade do trabalho. “Temos um grande problema que é como transformar um país mais inclusivo na sua dinâmica social, num mundo que está em profunda transformação. Nós fomos colocados no divã pela China e outros países do Oriente. Estamos sendo excluídos das principais cadeias de valor da terceira revolução industrial. Mas o que está acontecendo agora, de forma muito séria, é a quarta revolução industrial. Nessa nova revolução, que vai modificar 70% dos empregos nos próximos 10 anos, nós não temos a menor condição de nos inserir”.

Lucchesi apontou como causas para essa exclusão a falta de “massa crítica” nos grupos empresariais, um sistema que incorpora baixíssima capacidade inovadora, o atraso provocado pelo Custo Brasil, a rigidez das leis trabalhistas e a enorme dificuldade de capital humano. “Temos uma enorme deficiência: 90% das pessoas que concluem o 3º ano do ensino médio não aprenderam adequadamente a matemática, e 70%, a língua portuguesa”.

A solução passaria pela mudança da matriz educacional através da promoção do ensino técnico. “O atual sistema educacional é profundamente excludente, porque 83% dos jovens que frequentam o ensino médio não vão para a universidade. A carga curricular é feita de forma a preparar o aluno para a universidade, mas isso não acontece. Nós tiramos o direito do sistema educacional dar uma identidade social para os jovens a partir de uma profissão. Deveríamos promover o ensino técnico, mudar a matriz educacional para assegurar melhor inclusão social para as pessoas”, defendeu Rafael Lucchesi.

Mobilidade e produtividade

Especialista em economia regional, o professor Eduardo Haddad (FEAUSP) ressaltou que a mobilidade urbana é uma área de estudos importante para a análise da produtividade do trabalho, porque ao aproximar as empresas dos trabalhadores você gera um “matching” mais eficiente, que resulta em benefícios e aumento da produtividade. Segundo ele, metade da população mundial vive em áreas urbanas e, no Brasil, esse índice já ultrapassa os 80%. As implicações desse processo intenso de urbanização foram discutidas em 2012, no Marrocos, por estudiosos internacionais, e uma das constatações foi a de que as cidades são “veículos poderosos” para garantir o crescimento econômico contínuo.

Analisando especificamente a região metropolitana de São Paulo, o economista afirmou que houve mudanças estruturais significativas nas últimas décadas, o que provocou um esvaziamento das atividades industriais. Enquanto em 1970 a região detinha 50% dos empregos industriais, hoje reúne menos de 15%.

Recorrendo a mapas para mostrar as concentrações de empregos e os fluxos dos trabalhadores nessa região, Haddad disse que, todos os dias, 1 milhão de pessoas se deslocam de outras cidades para trabalhar na capital paulista. Para avaliar os impactos dessas “migrações pendulares”, disse que é preciso separar o local de residência do local de trabalho, e do consumo. “É importante considerar essa heterogeneidade espacial e de renda individual. Se a gente olha o padrão de deslocamento dos trabalhadores de maior renda, verifica que ele é muito mais próximo de onde estão os empregos”. Outra constatação é de que as taxas de desemprego são muito mais baixas na área central, onerando o custo de procurar emprego para quem mora mais distante.

O economista citou, ainda, que diversas literaturas já demonstraram que trabalhadores que levam mais tempo no deslocamento diário para o trabalho são menos produtivos. Apesar de menos perceptível, também existe, segundo ele, uma relação entre acessibilidade e produtividade. “Trabalhadores com maior acessibilidade a empregos disponíveis são mais produtivos. Se eu tenho um sistema de mobilidade eficiente é como se eu tivesse aproximando trabalhadores e firmas, gerando um matching mais eficiente no mercado de trabalho. Aumenta a probabilidade das firmas contratarem os trabalhadores que elas necessitam, e os trabalhadores têm maior probabilidade de encontrar os empregos que desejam”.

Políticas de geração de empregos

A professora Renata Narita (FEAUSP) analisou duas políticas do governo brasileiro que poderão afetar diretamente a demanda por trabalho no futuro, além de reunir potencial para gerar empregos formais. A primeira é a desoneração da folha salarial aplicada em alguns setores da economia (TI, comunicação, couro e calçados, construção civil etc), que reduziu de 20% para 0% a contribuição patronal. Segundo a economista, a medida previa gerar mais empregos formais e fortalecer a indústria, no período da desaceleração da economia. Ao analisar se realmente ocorreu o impacto desejado, Narita recorreu a uma recente dissertação de mestrado defendida na FEA. Ela disse que os resultados do trabalho indicaram um aumento médio de 3,5% no número de empregos formais nos setores desonerados, em comparação a setores do grupo de controle não desonerados.

A outra política avaliada pela docentefoi a da flexibilização dos contratos de trabalho. Atualmente, a terceirização do trabalho é permitida apenas nas atividades meio das empresas. Para analisar os impactos dessa política na geração de empregos, Renata Narita baseou-se em um artigo do colega da FEA, Helio Zylberstajn, que reuniu dados do setor de TI. A análise concluiu que, entre 2007 e 2012, houve um aumento geral no número de trabalhadores, tanto terceirizados quanto próprios, mas com maior força entre os terceirizados. Narita também avaliou o receio da precarização do trabalho em decorrência da terceirização. Segundo ela, pelo menos em relação aos salários, não foram detectadas perdas representativas.

Futuro do emprego

O professor André Portela (FGV) focou sua apresentação no “futuro do emprego”. Utilizando dados de um estudo seu, realizado em parceria com outros 15 autores, Portela disse que “não se pode falar ainda no fim do emprego no mundo”, em decorrência das mudanças tecnológicas e da globalização. O que existe, explicou, é uma mudança no perfil dos trabalhadores no mundo. “As evidências mostram que ocupações que exigem repetição de tarefas estão diminuindo.As máquinas e os computadores minam aquelas atividades que são repetitivas”, avaliou o economista. Em contrapartida, entre 1991 e 2014 houve um aumento no número de gerentes e profissionais técnicos no mundo.

Ao analisar a situação do Brasil, Portela apontou como um dos entraves para a evolução da produtividade o fato de ainda existir um grande número de postos de trabalho de baixa produtividade em pequenas empresas, e poucos postos com alta qualificação nas grandes empresas. “Isso não é fruto de tecnologias, é fruto de instituições, típico de países em desenvolvimento, em que as empresas improdutivas e os postos de trabalho com baixa produtividade não morrem”.

Outro ponto desfavorável no caso do Brasil é que grande parte dos profissionais formados no ensino superior acabam não exercendo a sua profissão, com exceção de médicos, dentistas, advogados e enfermeiros. Esse é um problema que deveria ser objeto de preocupação do governo, segundo André Portela, já que os gastos com educação pública representam 6% do PIB.

A jornada “O futuro do trabalho no Brasil” teve a participação, ainda, do diretor do Departamento de Pesquisa do Escritório da OIT em Genebra, Raymond Torres, da coordenadora da Comissão Estadual de Trabalho Decente do Governo do Estado de São Paulo, Letícia Mourad, do secretário para Assuntos Econômicos da UGT, José Roberto de Araújo Cunha, e dos professores Carlos Roberto Azzoni (FEAUSP), James Wright (FEAUSP), Maria Tereza Leme Fleury (EAESP-FGV e FEAUSP) e Aron Belinky (EAESP-FGV).