Palestra mostra cenário ideal para São Paulo no futuro

Imagine uma metrópole que possua vários centros, onde seus moradores não precisem se deslocar muito para chegar ao trabalho ou para ter acesso a serviços como educação, saúde e lazer. Esse cenário foi idealizado para a cidade de São Paulo no futuro. Ele faz parte do projeto “SP 2040 – A Cidade que Queremos”, desenvolvido por um grupo de professores da Universidade de São Paulo e técnicos da Prefeitura, há cerca de seis anos. No último dia 27 de outubro, ao conduzir a palestra “Repensar São Paulo para repensar o Brasil”, o professor James Wright, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEAUSP), trouxe detalhes do projeto como forma de “refletir sobre o futuro da cidade e do país”. Foi o sexto evento do ciclo “Repensar o Brasil”, que vem discutindo e propondo soluções a respeito de temas emergentes da agenda nacional.

“Em 2010, a USP foi convocada a colaborar com a Prefeitura e montamos um plano estratégico para São Paulo. Por força de lei, a cidade já tem planos diretores que são renovados a cada 10 anos, que definem as diretrizes fundamentais sobre uso do solo, sistemas de transporte etc. Mas, nesse projeto, houve uma inspiração de pensar num prazo mais longo – 30 anos – que é um padrão entre as grandes cidades do mundo”, afirmou James Wright, do departamento de Administração, que criou a metodologia e a quem coube comandar a equipe formada por 25 professores de três unidades da USP – FEA, FAU e Politécnica. A ideia do projeto era criar uma visão de futuro, uma estratégia de desenvolvimento que seria implantada por sucessivas administrações, e não apenas num mandato.

Aproximar a moradia do emprego, recuperar a qualidade ambiental, modernizar a infraestrutura urbana, fomentar a produtividade e a competitividade, promover a inclusão social, e ampliar a capacidade de investimentos na cidade. Essas foram as principais sugestões propostas pelo estudo, após ouvir 300 especialistas locais, 10 consultores internacionais e 25 mil cidadãos, que opinaram por meio eletrônico. Foram realizados, ainda, workshops nas 31 subprefeituras do município e pesquisas com cerca de 10 mil pessoas em locais de grande concentração, como o metrô e parques.

A questão inicial da pesquisa, definida pelo professor James Wright como “visão extrapolativa”, girava em torno da pergunta: “O que acontece se nada for feito?” A conclusão foi a de que o crescimento desordenado de várias décadas agravaria problemas de mobilidade, moradia, segurança e saúde. Do ponto de vista dos negócios, a cidade se tornaria cada vez menos atrativa e dinâmica para empresas e para a mão de obra especializada. Em consequência, a arrecadação de impostos cairia. Foi mais ou menos o que aconteceu com Nova York, em 1973. “Em outubro daquele ano, Nova York faliu. A partir dali, a cidade começou a repensar seu futuro e uma das coisas que aconteceu, a partir dos anos 80, foi um plano de recuperação envolvendo iniciativa privada e poder público”, descreveu Wright.

Cenário desejado

Após discutir a “visão exploratória”, ou seja, que cenários futuros podem acontecer, James Wright disse que se chegou à “visão normativa”, ao cenário desejado para São Paulo em 2040, quando haverá cerca de 12,4 milhões de habitantes: uma cidade “policêntrica”, com habitação digna e qualidade de vida. “Uma cidade que não tem um só centro, mas muitos. Esses centros têm vida própria, tem serviços, moradia, trabalho, escolas, que podem atender muitas das necessidades das pessoas que moram nesses locais”, explicou.

Segundo o docente, o papel projetado para a cidade é ser um centro global de negócios e de inovação. “Precisamos ser de fato um exemplo para o mundo, um palco comercial que alavanca o país todo”. Entre as prioridades identificadas no projeto estão: revitalizar os rios e os córregos (rios vivos), a cidade de 30 minutos (viagens de trabalho devem durar em média 30 minutos), eliminar as áreas de risco, equipar as favelas e transformá-las de verdade em comunidades dotadas de serviços públicos decentes, criar polos de oportunidades (centros de negócios e centros de desenvolvimento regional estruturados e dinamizados), além de construir parques urbanos.

Brasil 2020

O professor James Wright também falou sobre outro projeto que participou – Brasil 2020 – que visava pensar o país no longo prazo. “O objetivo maior era melhorar a qualidade de vida da população, por meio da distribuição de renda, redução das desigualdades regionais e do crescimento da economia”. Entre os meios identificados pela pesquisa, o docente citou atender os mercados de massa do Brasil, como alimentos e energia, criando ocupação e renda, desenvolvendo o interior e aumentando a participação do país no comércio mundial.

O projeto estabeleceu três pilares para alcançar esses objetivos. Segundo James Wright, o primeiro pilar é formado por educação de qualidade, saúde e saneamento, e aumento da qualificação e produtividade da mão de obra. O segundo por instituições sólidas, principalmente as instituições públicas. E o terceiro pilar é composto por investimentos em ciência, tecnologia e inovação, inclusão digital, sistemas mais eficientes de transportes e energia, e sustentabilidade.

“Precisamos melhorar em todas essas dimensões. Não adianta simplesmente distribuir renda. O Bolsa Família é um programa útil para uma situação emergencial, mas ele não sustenta nada efetivamente para o futuro. A gente precisa construir a casa em cima desses pilares. Na verdade o projeto foi a atualização do programa do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Não precisei mudar nada até hoje, continua super válido”, avaliou James Wright.

Educação

Em relação à educação, o que falta é aumentar a qualidade do ensino. “Não precisamos de mais escolas, precisamos de boas escolas”. James Wright informou que atualmente a taxa de ociosidade nas escolas do ensino fundamental da capital paulista é de 30%. Segundo ele, esse índice deverá aumentar nos próximos anos, já que haverá menos jovens em proporção ao grupo de pessoas economicamente ativas (15-60 anos) e ao grupo dos idosos.

Sobre a produtividade, Wright disse que esse é um grande desafio, pois o crescimento do país depende da melhoria da eficiência do trabalhador brasileiro, que está muito atrasada em relação aos países desenvolvidos. “Não é questão de trabalhar mais horas, mas trabalhar melhor, produzir produtos e serviços de maior valor, trabalhar com mais eficiência, automatizar tarefas. Outra coisa é reduzir a burocracia, porque ela cria trabalho inútil. As empresas têm esquadrões de pessoas preenchendo papéis inúteis”, completou.

James Wright também apresentou propostas relacionadas à FEAUSP. Para área de ensino, ele destacou as seguintes ações: formar administradores de padrão global para aumentar a eficiência do trabalho, enfatizar o uso da tecnologia para alavancar a eficiência, e inovar em modelos de negócios e empreendedorismo. Em relação à pesquisa, as sugestões são desenvolver propostas para a redução da burocracia e simplificação tributária, propor novos modelos de gestão mais eficaz para o setor público, e estudar o uso de computação cognitiva na administração de empresas. Já do ponto de vista da extensão universitária, James Wright apresentou como propostas: apoiar programas de empreendedorismo em comunidades de baixa renda e apoio à internacionalização de pequenas e médias empresas.